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PERGUNTAS E RESPOSTAS (1).

PERGUNTAS E RESPOSTAS (1).

Prezado Sr. Mauricio de Sousa:

Minha professora pediu um trabalho sobre o senhor, na classe, e por isso estou lhe escrevendo para fazer umas perguntas. O senhor responde? O trabalho vai valer nota para este bimestre.

1ª pergunta: Em quem o senhor se inspirou para fazer os personagens?
2ª pergunta: Desde quando o senhor desenha?
3ª pergunta: Qual é o seu personagem preferido?
4ª pergunta: É verdade que a Mônica é sua filha?
5ª pergunta: Como faço para visitar o estúdio?
6ª pergunta: Como é ser famoso?

O senhor pode deixar uma mensagem para os alunos da minha classe?

Obrigada.
Elisa.

Prezada Elisa:

Boa parte do que você me pergunta está no nosso site da Internet (http://www.monica.com.br), mas aproveito para acrescentar mais algumas informações.

Primeiro vamos falar sobre a inspiração. E de como nasceram os primeiros personagens (sua primeira pergunta): meus primeiros personagens nasceram de observações que eu fazia, de tudo e de todos que viviam, andavam, pulavam, me rodeavam. O Bidu, por exemplo, é muito do que foi meu cachorrinho Cuíca, companheiro de infância. Eu me lembro que chegava da escola, tirava o uniforme, almoçava e em seguida saia com o Cuíca para explorar os morros próximos da casa da minha avó. Morros cheios de mato rasteiro, uma ou outra árvore e grandes barrancos cavocados por tratores em busca de terra para assentar em outras áreas da cidade. Era a Mogi das Cruzes de 50 anos atrás. Os morros eram os que dão para o cemitério e os barrancos escavados ficavam perto da antiga casa caixa d´água e iam até onde é hoje o colégio Washington Luiz.

Eu saia descalço, como gostava, armado com um porretinho de madeira escura, retinho, roliço, para me defender de alguma cobra ou escorpião que pudesse encontrar. O bastão foi dado pelo meu avô Toledo, que o “esculpiu” exatamente para essas minhas aventuras, com um tipo de madeira muito resistente chamada peúva.

E lá ia eu, com o Cuíca sempre correndo na frente, armado com a peúva que, felizmente, jamais encontrou uma serpente para estrear como arma.

Mas me ajudava bastante numa brincadeira gostosa de desbarrancar os paredões de terra vermelha. Enfiava o bastão numa fissura do terreno, na parte de cima ainda não escavada e provocava o deslizamento de grandes blocos de terra que escorriam como uma avalanche, levantando poeira e alterando o desenho dos paredões. Da terra revolvida, escorpiões, minhocas gigantes e outros bichos esquisitos saiam correndo ou voando, para diversão do Cuíca que não queria perder nada que se movimentasse perto dele. Latia, corria e se divertia. Depois, saíamos para buscar alguma coisa para beber.
Tanto trabalho, tanta aventura e tantos “perigos” mereciam alguns copos de água fresca. Era só chegar a alguma casa mais próxima e pedir que nos serviam com gentileza.

Eu enfrentava bem os monstros dos barrancos, os “desfiladeiros” várias vezes mais altos do que eu, as chuvas fortes e geladas que vinham de repente, mas não ousava chegar perto do misterioso “casarão caixa d´água” ou do muro do cemitério. O casarão, pintado de azul e branco, me assustava pela imponência do vazio, uma infinidade de janelas sempre fechadas, sem portas de entrada visíveis, sem ninguém vivo circulando por perto. E com aquele soturno e incessante barulho de água escorrendo lá dentro. Já o cemitério me assustava por outros motivos que iam desde as histórias de assombração que eu ouvia da minha avó até a grande altura dos muros. Afinal, eu tinha metade da altura que tenho hoje.

Conseqüentemente, os muros caiados de branco, cercados de ervas e flores-de-defunto, eram duas vezes mais altos do que seriam hoje para mim. Fora o mistério dos túmulos que estariam do outro lado. E a terra… e o ossário. Brr.

Naturalmente já havia entrado no cemitério acompanhando algum enterro. Grudado na mão da mamãe ou da madrinha. E me lembrava do que os mais velhos falavam sobre
os cuidados e respeito que se deve ter naquele lugar: não pisar nos túmulos, não colher flores nascidas ou postas ali, não levar terra do cemitério grudada nos pés ou sapatos e nem pegar ossos que porventura fossem encontrados desenterrados. Senão os “moradores” do cemitério iriam nos visitar para retomar suas “propriedades”. E geralmente escolhiam os horários próximos da meia noite para aparecerem e nos matarem de susto.

Assim, por via das dúvidas, brincava longe do cemitério e do casarão.

E lá pelas tantas, voltava para o gostoso café da tarde na casa da vó Dita. O Cuíca, depois de mais umas lambidas na água, se enrodilhava e dormia o resto da tarde.

Eu ia fazer minhas lições, estudar e depois ler uns gibis.

Dessa época, desse tempo, dessa rotina, fui buscar inspiração para vários dos meninos que viraram personagens nas minhas histórias em quadrinhos. O Franjinha às vezes sou eu com o Cuíca. Outras vezes o Cascão, embora baseado em outro garoto, me lembra os brinquedos que eu inventava e armava quando criança. O Cebolinha, inspirado em um outro menino, de cabelos espetados, quando apronta, é como se fosse eu, amolando minhas irmãs quando elas brincavam de casinha. E das minhas andanças com o Cuíca nasceram meu conhecimento e minha admiração pela “amizade” linda que há entre crianças e cachorros.

O Bidu, meu primeiro personagem e símbolo do estúdio é prova disso.

Continuo na semana que vem, tá?

Mauricio de Sousa
17.04.1998

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