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OS PERSONAGENS DO LIMBO.

 OS PERSONAGENS DO LIMBO.

Perguntam-me: quantos personagens você criou?

E eu vivo respondendo que são pra mais de 200.

Alguns mais e outros menos conhecidos.

E também explico que não fico criando mais personagens a toda hora porque não daria tempo de cuidar bem deles. É como você ter uma penca de filhos e não poder educá-los bem.

Enquanto isso, os personagens que vêm à luz, merecem toda a consideração, respeito e carinho. Para que se conservem vivos e atuantes junto ao leitor.

Mas no meio desse processo há alguns acidentes de percurso. É quando um personagem não “pega”, não agrada, e fica marcando passo. Ou quando esse personagem deixa de ser interessante para quem o criou. Daí não há o que se possa fazer para que ele se mantenha num lugar ao sol.

Na história do nosso estúdio também já houve esse tipo de problema. Personagens que foram ficando para trás, esquecidos, e agora só fazem parte da história.

Um deles é o Nico Demo, herói de tiras de humor negro, aposentado por desagradar diretores de redação de alguns jornais. A história triste desse anti-herói eu contei
em crônica anterior.

Mas houve outros: os Dez Ajustados, por exemplo. Era uma série de tiras publicada num antigo jornal de São Paulo chamado Correio Paulistano. Contava as aventuras de uma família muito louca que morava num cortiço da rua Augusta. Era uma sátira, onde cada um dos dez elementos da família se posicionava de forma diferente ante sua difícil realidade social.

Boa Bola, personagem exclusivo em tiras de jornal, só falava de esportes. E também praticava. Nem sempre com bons resultados. Era um personagem muito humano nas suas aspirações e ações.

Niquinho era a antítese do Nico Demo. Bonzinho, bem intencionado, só entrava em fria, apanhava da vida, tudo dava errado pra ele, apesar de suas boas intenções. Era uma série de histórias mudas, em tiras.

Teveluizão fazia parte da turma da Mônica nos velhos tempos, era vidrado em TV e só vivia em função da sua programação. De vez em quando sai do limbo, esporádicamente, pinçado por algum roteirista do estúdio com mania de nostalgia.

E tem o Bernardão, criatura superdesagradável para os amigos, pois onde aparecia, acontecia um desastre, um acidente, uma desgraça. Quando deixavam, vivia suas situações nas tiras do Cebolinha, nos velhos tempos da Folha. Mas como ninguém gosta de desgraça ou azar, o Bernardão foi para o esquecimento, ficou no limbo. E a propósito deste personagem, esclareça-se que foi baseado num jornalista amigo meu que tradicionalmente provocava algumas dessas situações.

E outro jornalista, colega de redação na Folha, me sugeriu outro personagem. Como era bem robusto ( peso pesado ) virou o “Garotão” , um amigo do Cebolinha que de tão grande, não cabia nos quadrinhos. Jamais apareceu. Vivia provocando situações e falando com a turma de fora do quadro. Depois dessa passagem invisível pelos quadrinhos, o Garotão virou o jornalista Carlos Brickman, atuante até hoje.

E ainda havia uma página semanal, colorida, com histórias mudas do Zé Munheca, um personagem que era a personificação do cara miserável, unha-de-fome, que não abre a mão nem pra cumprimentar.

Saía num suplemento do Diário Popular, em São Paulo e depois era republicado em diversos outros jornais brasileiros. Mas era um personagem que eu me sentia mal, fazendo. Não tinha nada a ver comigo. Embora tivesse uma boa carga de humor e crítica social. Mas eu o aposentei por desagrado pessoal. Foi para os arquivos.

Qualquer dia destes vou dar uma mergulhada no limbo dos personagens esquecidos para rever um pouco dessas histórias e experiências. Talvez para uma republicação em álbuns especiais. Aguardem.

Mauricio de Sousa
14.08.1998

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