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O VÉIO CHICO.

O VÉIO CHICO.

Uma leitora chamada Gêisa nos enviou por e-mail diversas perguntas sobre o Chico Bento, nosso personagem caipira.

Eis os pontos que ela colocou:

“O que eu gostaria de saber é se o Chico sempre teve essa feição infantil de hoje, ou se foi criado como um adulto e posteriormente foi se “infantilizando”. Ou seja: o desenho do Chico Bento foi mudando conforme o tempo, ou desde 1961 ele sempre teve essa carinha de hoje? E, se ele era retratado como adulto e depois virou criança, desde quando e por que isso aconteceu?”

“Alguns autores, dentre eles o crítico Álvaro de Moya, perceberam no personagem Chico Bento traços do Jeca Tatu, de Monteiro Lobato. Lendo e relendo as crônicas do Sr. de Sousa, nada pude encontrar a respeito e por isso gostaria de saber qual é a opinião dele sobre tal afirmativa.”

E como muitos leitores podem ter a mesma curiosidade sobre o Chico Bento nas suas origens, expliquei para a Gêisa — e aqui explico pra vocês, também — algumas das coisas que lembro sobre os primeiros tempos do personagem:

O Chico Bento já nasceu com seus quase sete anos. Meio feinho, diga-se de passagem, mais magro do que é agora, mas sempre com as características que você vê nas historinhas de hoje.

Surgiu como personagem secundário, nas tiras que eu batizara de “Hiroshi e Zezinho”, publicadas no Diário da Noite, que circulava em São Paulo, na década de 60. O jornal pertencia ao grupo dos Diários Associados, propriedade do lendário Assis Chateaubriand.

Hiroshi, um nissei, e Zezinho (o Zé da Roça, de hoje) no começo das publicações não tinham outros companheiros. Até que o Chico apareceu, foi se infiltrando e ganhou seu lugar de destaque.

Afinal, era mais interessante do que os dois primeiros, muito “certinhos”.

Na mesma época, Hiro e Zé também apareciam em páginas tipo tablóide, numa revista chamada Coopercotia, da Cooperativa Agrícola de Cotia.

A publicação era mensal. E serviu para eu amadurecer traço e características dos personagens. O Chico também passou a aparecer por lá, no meio das histórias dos dois titulares, depois de algum tempo.

Em seguida o Chico afinal ganhou seu espaço com direito a nome de história e tudo. Foi nas páginas de um suplemento semanal, de quadrinhos, que eu fazia para o Diário de São Paulo, jornal do mesmo grupo associado. Ali, o Chico estreava como personagem principal, em cores. O Hiro e o Zé passavam a ser coadjuvantes.

E o ano das primeiras aparições do Chico Bento foi 1963, já entre as primeiras tiras do Hiroshi e Zezinho, como coadjuvante.

Quanto às conclusões dos pesquisadores sobre semelhanças do Chico com o Jeca Tatu, fica por conta desses mesmos pesquisadores. Eu, mesmo, nunca pensei em aproximar as duas imagens.

Mas essas conclusões talvez sejam provocadas pela origem dos dois personagens: Chico é uma montagem de características que vi e vivi na minha infância, nas cidades de Mogi das Cruzes e Santa Isabel. Bem na área do Vale do Paraíba. E o Jeca Tatu é um personagem criado pelo Lobato, a partir de observações que ele fazia de roceiros do mesmo Vale do Paraíba. Uma ou outra coisa em termos de hábitos, costumes, uma ou outra coisa em termos de moldura, devem ser semelhante.
Mas definitivamente Chico Bento é mais um tio-avô meu, roceiro da região do Taboão (entre Mogi e Santa Isabel), que nem cheguei a conhecer pessoalmente, mas de quem conheci inúmeras histórias hilariantes, contadas pela minha avó. Era uma espécie de Pedro Malazartes, tanto que aprontava.

E tinha um irmão gêmeo, Zé Bento, que no início ignorei, para as histórias em quadrinhos.

Posteriormente, quando senti que o Chico Bento precisava de um outro personagem para a geração de situações mais cômicas, fui buscar o tal gêmeo. Que batizei de Zé Lelé.

Nas historinhas, ele é apenas um amigo do Chico.

Afinal o Zé Bento, segundo as histórias da vó Dita, era tanto ou mais gozador do que o mano Chico Bento.

Mauricio de Sousa
22.11.2002

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