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NOMES… DE ONDE VÊM?

NOMES... DE ONDE VÊM?

Vivem me perguntando de onde tirei ou tiro os nomes dos personagens. E é uma pergunta com uma porção de respostas. Porque cada um dos personagens de nossas histórias em quadrinhos nasceu e foi batizado num momento diferente, especial, onde diversas influências pesaram para a música de seus nomes.
Bidu, por exemplo, nome do meu primeiro personagem profissional, é resultado de uma “eleição” que fiz na redação da Folha.

Corria o ano de l959 e eu ainda era repórter policial. Mas além das reportagens, comecei a publicar tiras semanais, de alto a baixo da página do jornal, sem título.

Eram historinhas mudas, como se fosse uma charge seqüencial (na vertical). Saíram durante alguns meses, até que me embaraçou a falta de título. Mas não atinava com um nome. Foi quando resolvi passar uma lista pela redação solicitando sugestões para o batismo.

Choveram os nomes mais estapafúrdios, desencontrados, mas no meio deles, um antigo colega —Petinatti— indicou Bidu.

Na ocasião, estava na moda a expressão “bidu”, significando esperto, adivinho. Achei que era uma boa imagem sonora para meu cachorrinho de papel. E escolhi o nome.
Logo depois, achei que também precisava batizar o dono do Bidu. E como ele tinha, no desenho, uma franjinha feita como se fossem pingos, tirei dessa característica seu nome.

Quando as tiras começaram a ser publicadas diariamente, já saíam com o título “Bidu e Franjinha”.

Posteriormente, nas tiras do Bidu, começou a aparecer um menino de cabelos espetados e que trocava o “r” pelo “l” quando falava. Era baseado num garoto de Mogi das

Cruzes que jogava bola perto da barbearia do meu pai. E foi meu pai que, observando o menino e seu cabelo parecendo com o alto de uma cebola, começou a chamá-lo de
Cebolinha. Peguei daí o nome e parte dos detalhes físicos.

Junto com o Cebola jogava bola outro garoto, de roupas sempre muito sujas de barro, de terra, e que, aparentemente, vivia muito longe de um banho.

Mais uma vez meu pai sugeriu um apelido que pegou: Cascão.

Quando criei o Cebolinha, o Cascão foi criado junto. Mas durante muito tempo não tive coragem de lançar o personagem com medo de que o público não o recebesse bem (pelos maus hábitos de higiene).

A Mônica, como a maioria dos nossos leitores sabe, foi baseada na minha filha homônima, com muito do seu jeitinho, gênio e personalidade. Quanto ao nome Mônica, da filha real, saiu de uma lista que eu fazia em casa, com muitos nomes sugeridos pela mãe, pelos parentes. Onde eu pinçava o que me parecia melhor, mais forte, mais musical.

Maria Cebolinha, a irmã do Cebolinha, vem da Mariangela, minha primeira filha. E o nome Mariangela também saiu de uma listinha.

E Magali, como os leitores também devem saber, veio de minha filha real, a Magali. Ambas gulosas. O nome fui buscar na lembrança de uma estrela do cinema francês que
fazia sucesso na época: Magali Noel.

Chico Bento é o nome de um meu tio-avô que não cheguei a conhecer. Vivia nas histórias que minha avó contava dos seus tempos de vivência na fazenda da família, no atual bairro do Taboão. Segundo a vó Dita, Chico Bento era um homem superdivertido, gozador, juntamente com seu irmão gêmeo, Zé Bento.

Penadinho vem de alma penada, fantasma.

Papa-Capim é um pássaro, comum na Bahia.

Piteco veio de “Pithecanthropus Erectus”, um dos homenzinhos pré-históricos que de vez em quando dão o ar da graça em ossinhos desenterrados pelos paleontólogos.

Tina veio de Cristina, uma conhecida minha dos tempos de colégio.

Pipa nem sei de onde veio. Talvez quando eu a desenhei pela primeira vez, tenha achado que ela se parecia com uma.

O Rolo, meio baseado no meu irmão mais novo, Márcio, veio dos tempos em que
o mano, muito jovem, era especialista em arrumar rolos por aí.

Astronauta só poderia ser astronauta. Não houve muita criatividade na busca do nome.

O nome do Horácio fui buscar num amigo, professor, em Mogi. Mas a
forma do mesmo personagem foi inspirada num outro amigo mogiano, o Timinho.

O elefante Jotalhão tem esse nome porque nasceu numa série de tiras encomendada pelo jornalista Alberto Dines, então no Jornal do Brasil,do Rio. Daí, o “J”.

Mauricio de Sousa
29.04.1998

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