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CRÔNICA DE UM NATAL ATRASADO (2)

CRÔNICA DE UM NATAL ATRASADO (2)

—…Com que então o senhor quer entregar esta bola ao detento da cela 14, senhor…?
— Papai Noel.
— Está bem. Senhor Papai Noel.
— É uma entrega atrasada, admito. Ele pediu esta bola quando tinha só oito anos. Mas o pedido se extraviou… E estou tentando corrigir a falha. Se me permitir.
— Eu não imagino de que organização, companhia ou entidade o senhor saiu mas… é muita ousadia chegar aqui, sem documentos nem autorização e pedir para ver um preso, para entregar alguma coisa. Aí deve ter algum truque… e nesta época de festas, desconfiamos de qualquer coisa, entendeu? O que está por trás disso? Algum plano de fuga? Alguma rebelião?
— Absolutamente. Somente o que eu falei, mesmo. Minha missão é só entregar presentes. Não poderia me envolver com qualquer outra coisa, senhor Celso.
— Ah! Sabe meu nome, não é? Então deve saber, também, que sou super-rigoroso…e não caio em qualquer conversa. — Deixe-me ver esse presente, essa bola.
— Se desse pra o senhor não desfazer a embalagem…
— Como é que vou ver se há uma bola mesmo, sem nada dentro, sem rasgar o papel todo?
— É. Eu sei como é. O senhor… sempre rasgou os papéis de presente meio… violentamente.
— ?
— Bem. Pelo menos, quando era criança.
— Do que o senhor está falando?
— Ora. Dos seus presentes. Que eu trazia, muito tempo atrás. Aquele trenzinho, que eu entreguei quando o senhor tinha — deixe-me ver — uns sete anos, até ficou meio amassado de tanta força que fez para desfazer o pacote e os laços. No ano seguinte, foi a vez dos caminhõezinhos. Mas eles eram resistentes. Não estragaram…
— Quem lhe contou isso?
— Ninguém. São relatórios que recebo dos anõezinhos, depois de minha passagem. Assim podemos preparar melhor os brinquedos para resistirem às crianças… e às suas… características.
— O senhor deve estar brincando comigo…
— Eu não brincaria com uma coisa tão bonita… e tão séria… como essa de atender aos pedidos de uma criança.
— Eu não… sou criança…
— Mas foi… até que desistiu de acreditar em mim, lá pelos seus onze anos… e começou a falar diretamente com seu pai. O que foi corretíssimo. Natural.
— Mas… meu pai não me atendeu. E o senhor sempre me atendia.
— Quando a coisa vai para a negociação pai/filho, tudo passa a depender dessa relação, do entendimento.
— Pois então custou para meu pai entender. Houve até momentos em que lamentei não acreditar mais no senhor…
Ops…
Estou falando como se eu acreditasse que o senhor é realmente o Papai Noel.
— Mas não era nisso que o senhor queria acreditar, de novo?
— Mas não agora, não fora do tempo.
— Sempre é tempo para acreditarmos no espírito de Natal, na sua magia… e na força dos nossos pensamentos e desejos.
Eu estou aqui, justamente, por causa disso… E a propósito, como faço para encontrar o Felipe… e entregar esta bola pra ele?
— Espere. Eu vou chamá-lo aqui… e… não repare estas lágrimas. Eu… estou meio resfriado (schiff)…


— Papai Noel? Cê tá brincando, meu!…Qual é?
— … Está certo que vim meio atrasado, mas… olha aqui. Sua bola de capotão. Espero que você não tenha ficado muito frustrado, triste comigo… Afinal, pediu quando tinha oito anos… e já se passaram mais dez…
— Você é o Papai Noel, mesmo?
— Sou.
— Então, tem que ouvir umas verdades, o meu.
Sabe por que eu pedi a bola? Era para participar de um campeonato lá no bairro. Tinha até patrocinador. Que ia entrar com jogo de camisas, aulinhas pra depois dos jogos, e por aí vai. Quem levasse a bola tinha o comando do time. Como ninguém levou, não teve time nem campeonato… e saímos pra fazer outras coisas no lugar de jogar, no lugar do esporte. E foi daí que a barra começou a pesar. Conhecemos uns caras que mexiam com furtos, drogas… e fomos nos envolvendo. Quando dei por mim, não dava mais pra escapar. Daí fui pego, estou pagando pelas bobagens que aprontei, mas alguns dos meus amigos não estão nem aí, mais, para contar suas histórias. Se foram. Em brigas, confrontos, acertos de contas…
Ei, Papai Noel. Vai molhar toda a barba com essas lágrimas… E agora… depois de tanto tempo… você me traz a bola dos meus sonhos? O que vou fazer com ela?…
— Você eu não sei, Felipe, mas eu poderia sugerir um campeonato aqui, no pátio, agora. Poderia ser um campeonato de Natal. Uma inovação aqui no presídio. Com direito às famílias dos presos virem torcer… e comemorar.
— O senhor faria isso, diretor?
— Por que não? E até poderíamos convidar aqui o Papai Noel para dar o chute inicial…
—Oh, oh, obrigado, senhor diretor, mas não seria possível. Tenho que voltar às minhas bases. Está quase na hora de começarem as entregas deste ano. E não poderia ficar para este campeonato lindo. Mas vou ficar torcendo para que tudo dê certo… e que o campeonato termine… empatado. Assim, ninguém fica triste, oh, oh, oh…
— Então combinado, Papai Noel. E daqui a algum tempo, quando eu sair daqui, volto a lhe escrever contando novidades…
— Estou estudando bastante aqui, fiquei noivo, me caso assim que sair e quando tiver um filhinho, vou contar minha história pra ele. Não sei se ele vai acreditar em mim… mas sem dúvida vai acreditar em Papai Noel.
— Feliz Natal, senhor diretor, feliz Natal, Felipe, feliz Natal a todos os que acreditam…
E até o ano que vem…
E o céu se encheu de luzes à passagem do trenó…

Mauricio de Sousa
14 de dezembro de 2000

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