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CRIE, INVENTE…

CRIE, INVENTE...

Volta e meia me perguntam: como você cria seus personagens? Como eles ganham vida? São baseados em quem? … No quê? …

E vivo repetindo que a maioria foi criada a partir de observações que fazia de filhos, parentes, amigos, etc..

Mas e daí?

Observar as pessoas que nos cercam todo mundo faz.

Como condensar uma personalidade, as características físicas, emocionais de uma pessoa conhecida e “vestir” tudo isso num figurante de histórias em quadrinhos?

Daí entra um pouco de técnica, conhecimento do processo de comunicação e habilidade.

Mas nada que não seja acessível a quem, realmente, quiser “inventar” um personagem. Dá um pouquinho de trabalho mas com o tempo, à medida que você for criando outros tipos, o seu “universo” ficcional irá ficando cada vez mais denso, conhecido por você mesmo, e onde cada personagem poderá servir de “escada” para outro.

Depois de algum tempo, quando sua turminha de personagens já estiver criada e suas características bem conhecidas, seu trabalho será o de buscar temas onde eles possam viver e vibrar.

Reagirão quase que sozinhos aos acontecimentos proporcionados pelo tema e vai chegar o momento em que você vai ter que dar um basta em alguma situação ou roteiro porque os personagens vão querer continuar “vivendo” o episódio.

Será o momento em que as criaturas começam a se mostrar independentes do criador.

E dependendo da força de suas personalidades, do cuidado que você tiver tido na hora da criação de sua “arquitetura” filosófica, moral, emotiva, eles vão ficando independentes… e você vai ficando tranqüilo, deixando que as coisas rolem. Como acontece quando temos filhos bem formados e que iniciam seus vôos solos, com nossa observação confiante, à distância.

Foi o que aconteceu quando eu observei a Mônica, minha filhinha de cerca de dois anos, brabinha, arrastando um coelho de pelúcia. Ou a Magali, com sua fome de melancias, ou os meninos que deram origem ao Cebolinha e ao Cascão. E tantos outros personagens que nasceram de observações que eu fazia do físico e do espírito de cada pessoa que eu observava.

Minhas criações foram endereçadas à história em quadrinhos, que era minha atividade. Mas se eu estivesse trabalhando em teatro, televisão, cinema ou qualquer outro meio de comunicação, a técnica para a criação dos personagens seria a mesma. A observação e a “caricaturização” podem dar personagens notáveis e muito humanos. E ainda se pode somar características de mais de uma pessoa para nascer outro personagem totalmente novo.

Enfim, se você quiser ter seu próprio mundo, seu universo virtual, onde tudo esteja sob seu comando ou ao seu modo, crie. Invente.

É delicioso.

E ainda pode se fazer disso uma bela profissão.

Eu fiz.

Mauricio de Sousa
26.06.1998

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