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A Turma da Mônica: O Começo do Começo.

A Turma da Mônica: O Começo do Começo.

Há muitos anos eu convivo com o universo da Turma da Mônica.

Mais precisamente, desde que criei o personagem, lá pelo início dos anos 60, num pequeno estúdio que eu mantinha em Mogi.

Pouco antes da Mônica, vieram Bidus e Franjinhas. E depois, Chico Bento, Pelezinho, Horácio e muitos outros, que foram brotando no papel à medida que o mercado de histórias em quadrinhos ia se abrindo.

Mas não foi fácil.

A palavra “abrindo”, escrita acima, talvez nem seja a mais adequada.

O termo correto poderia ser “rompendo”.

Porque nos primeiros tempos eu enfrentava, entre outros desafios, dois que eram assustadores. E que poderiam ter destruído nosso projeto no início: o descrédito num personagem de histórias em quadrinhos nacional e a dúvida sobre a manutenção de sua produção.

Afinal, nenhum personagem brasileiro de histórias em quadrinhos havia conseguido se manter durante muito tempo na mídia. E quando havia uma tentativa válida, seu autor, depois de algum tempo, descobria que não poderia viver daquilo. As HQs estrangeiras chegavam até nossos jornais tão baratinhas que as HQs nativas não tinham como concorrer.

Mesmo custando só o correspondente a um salário mínimo para o jornal. Assim, a opção de realizar histórias em quadrinhos e viver disso não era das mais atraentes, se se pensasse em profundidade nos problemas todos que envolviam a escolha.

Felizmente, naqueles idos de 59, 60, o artista Mauricio, jovem e otimista, desconhecia a profundidade desses obstáculos.

Sabia ou sentia que seria uma barra. Mas estava tão entusiasmado que resolveu tocar o projeto pra frente.

E varou alguns dias e noites criando as primeiras historinhas com os personagens que depois fariam parte do universo da Turma da Mônica.

Criados os personagens, vinha a parte difícil da administração disso tudo.

Um jornal só não pagaria o suficiente para o artista jovem, casado de pouco, se manter. A criançada já vinha vindo, com sua demanda natural de leite, conforto e brinquedos.

Foi então, que eu (quando mais novo) decidi pela montagem de uma re-distribuição das tiras de HQ.

Pelo sistema, copiado de modo como as tiras americanas são distribuídas via “syndicate”, a mesma historinha sairia em vários jornais.

Num rateio de custos.

E comecei a montar essa adaptação de “syndicate” à realidade dos jornais brasileiros.

Como eu ainda tinha pouco material para esse “rodízio”, tinha que ter cuidado para não vender mais do que poderia entregar. E essa entrega também era diferenciada do fornecimento de hoje.

Os jornais ainda não contavam com o sistema “off-set”. Eu tinha que mandar as HQs em clichês calçados em madeira. Que depois de publicados, teriam que ser devolvidos.

Para os mais novos, esclareço que clichês eram uma espécie de carimbo de zinco, em negativo, que para atingir a altura correta para a impressão, tinham que estar pregados em pedaços de madeira. Um trabalhão. Mas era o que havia.

E lá ia eu, depois de desenhar, levar e buscar os clichês para o meu sistema principiante de “syndicate”.

Como eu tinha clichês? Como eu escolhia os jornais que poderiam publicar?

Fica para a próxima vez.

Até!

Mauricio de Sousa
22.03.1996

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