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A Turma da Mônica Não Tinha Mulheres.

A Turma da Mônica Não Tinha Mulheres.

Lá nos idos dos anos 60 eu tentava, teimosamente, estruturar minha produção e participação no mercado de histórias em quadrinhos.

Tinha criado o Bidu, quando ainda era repórter policial do jornal Folha da Manhã (hoje, Folha de S.Paulo). Das tiras do Bidu (e Franjinha) pincei o Cebolinha para uma série em separado, e ainda produzi as tiras do Piteco, o homenzinho pré-histórico.

Nas tiras do Bidu apareciam outros personagens secundários: o Titi, o Manezinho, o Jeremias…

No Cebolinha aparecia o Cascão.

No Piteco vinham seus amigos trogloditas…

Daí alguém da redação da Folha me lembrou de um detalhe que eu estava deixando passar despercebido: Cadê os personagens femininos nos seus quadrinhos? Cadê as mulheres? Você é misógino? Perguntavam-me.

Primeiro corri ao dicionário para ver o que significava a palavra.

Misógino, diz o dicionário, é quem tem aversão ou desprezo pelas mulheres.

Como não era o meu caso, parei para pensar sobre o por que de não haver mulheres nas minhas primeiras histórias. E cheguei a uma conclusão “técnica”: eu estava escrevendo até então sobre situações e emoções que eu conhecia bem, como homem. Punha nas historinhas as minhas lembranças de infância (não tão remotas naqueles tempos), minhas brincadeiras, opiniões, temores e alegrias. Tudo muito vívido porque vivido. Era o ângulo pelo qual eu enxergava o mundo até ali. E eu como criança, depois adolescente, depois jovem adulto tinha olhos, observações e reações de homem.

Mas como nunca tinha sido mulher, ficava meio sem condições de falar pela boca de um personagem feminino. Não sabia exatamente como eu (quando autor) deveria me comportar ou relacionar quando incorporado por uma mulher. Mas a situação tinha que ser enfrentada. E resolvida.

Nesse tempo eu trabalhava em casa. Não tinha, ainda, alugado minha primeira sala-estúdio no centro de Mogi. Minha mesa de desenho vivia sendo arrastada entre um quartinho de empregada e a sala de estar de minha casa, na rua Otto Unger. E quando trabalhava na sala, esbarravam nas minhas pernas, como gatinhas, minhas duas filhas, Mariangela e Mônica (a Magali ainda estava para vir).

E nesses gostosos momentos observava os jogos, brincadeiras, ciumeiras, carinhos, emoções, das duas “mulherzinhas” logo ali.

E pronto. Dei-me conta de que já podia criar personagens femininos com conhecimento de causa.

Aquelas duas crianças, já mulheres numa série de atitudes e emoções, estavam me ensinando tudo o que me faltava.

Afinal, para pais de olhos sensíveis, filhos são transparentes nas suas emoções.

E com isso vieram a Mônica, com toda a sua força de comunicação — tanta que roubou a cena de todos os outros personagens — a Maria Cebolinha (baseada na Mariangela), a Magali, logo depois, Marina, mais recentemente, Vanda e Valéria, já criadas e em fase de lançamento. E muitas mais. Baseadas em filhas ou conhecidas.

Com a participação forte tanto de homens quanto de mulheres nas minhas histórias, pude criar um universo ficcional tão humano e real quanto o que vivemos. E que talvez seja um dos motivos para explicar o sucesso da Turma da Mônica.


Mauricio de Sousa
22.04.1996

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