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A Turma da Amazônia.

A Turma da Amazônia.

Há uma turminha de personagens alegres e felizes pulando e querendo sair da gaveta da minha mesa de desenho.

E são tão lindinhos (modéstia à parte)!

Tem um casal de indiozinhos, bem diferentes do Papa-Capim.

Tem animaizinhos da Amazônia com jeitinho gozado, gostoso, fofo.

Tem toda uma atmosfera, uma ambientação diferente das que temos usado nas histórias em quadrinhos ou desenhos animados produzidos até aqui, nos nossos estúdios.

Mas como acontece de vez em quando com algumas das minhas criações, esta família nasceu bonitinha, com desenhos caprichados mas… sem referências para o preenchimento de suas almas e ambientações.

Explico.

Normalmente, para que eu possa sentir firmeza no lançamento de um personagem, tenho que “conhecê-lo” em profundidade. Sentir o interior de sua personalidade. Não ter dúvida sobre sua reação em qualquer circunstância, situação, desafio.

Atingido este ponto de familiaridade, o personagem está madurinho para viver em histórias de gibis, de desenhos animados, de livros ou qualquer outro tipo de comunicação.

O trabalho é só buscar temas e soltá-los ali.

Ganham vida, reagem, interagem com outros personagens e, se não tomarmos alguns cuidados, tentam até mesmo ir além do espaço/tempo que lhes reservamos. Tal como acontece com figuras humanas vivas. Ou como nossos filhos.

E no caso dos indiozinhos e dos seus animaizinhos amazônicos, me faltaram estudos, pesquisa, conhecimento, vivência, para referendar as situações.

Não conheço a Amazônia como gostaria e deveria. Não tenho, na equipe, experts em Amazônia. E no correr destes anos, não pudemos nos desviar das produções tradicionais.

Assim, os Amazônicos (nome que eles receberam como turma, no estúdio) ficaram esperando sua vez de brincar com a criançada do Brasil e do mundo.

Enquanto eu espiava, quase todo dia, um quadrinho pendurado na parede da minha sala de reuniões, onde estão todos os personagens da turminha amazônica, vivos e coloridos… e sonhava com o tempo em que pudesse iniciar sua divulgação.

Afinal, eu me devia esse lançamento há muito tempo.

A mim e a muitos amigos. Como, por exemplo, o presidente da San-Rio (Hello Kitty) do Japão, Sr. Shintaro Tsuji, que, tempos atrás, foi quem me desafiou a criar esses personagens.

Numa reunião que tivemos em Tóquio, ele estranhou que eu, morando no Brasil, não tivesse criado um grupo de personagens amazônicos.

Outro amigo com quem conversei, e até planejei uma forma de lançarmos em grande estilo os amazônicos foi o imortal Tom Jobim.

Numa tarde, na sua casa à beira da floresta da Tijuca, conversamos longamente sobre o lançamento de um desenho animado passado na Amazônia, totalmente musicado por ele. Dory Caymmi está aí (e estava lá), para relembrar o momento.

Infelizmente não deu tempo.

Mas… sonhos que se transformam em boas idéias podem até demorar para sair do papel, das gavetas, das pranchetas, dos cadernos de rascunhos mas… há um dia em que ganham força e alçam vôo.

E é o que está em vias de acontecer com os Amazônicos.

Principalmente, depois de minha recente passagem por Belém do Pará.

Que vai ser reforçada em próxima viagem para Rio Branco, no Acre, com direito a conhecer a lendária Xapuri, de Chico Mendes.

Vou respirar Amazônia.

Desde Belém do Pará, tive sinais da pujança, da beleza, da força telúrica da região.

Onde povo e natureza se entrelaçam para receber os visitantes com calor e emoção.

A mesma emoção que vamos viver, daqui a algum tempo, quando assistirmos no cinema, nos vídeos, na televisão, as aventuras dos Amazônicos no seu paraíso ainda intocado pela civilização.


Mauricio de Sousa
10.12.2002

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